A História de Lia

“Lia é uma adolescente que vive num lar doentio e violento.

Para fugir das freqüentes tensões do dia a dia, ela se envolve com um grupo de jovens marginais e acaba por se entregar às drogas.

Mas a tragédia se desencadeia quando ela é possuída por sua amiga invisível”.

A BELEZA DO HORROR

Crítica do curta-metragem “A História de Lia”

 

O curta-metragem “A História de Lia” surgiu a partir do projeto “Tatúrula, Sinfonia do Medo”, que nasceu no ano de 2002 quando Rubens Mello era vocalista da banda homônima (Tatúrula). Da proposta de lançar um CD com uma HQ, Rubens teve a iniciativa de elaborar o texto e assim dar inicio à produção. Mas por inúmeros problemas o projeto teve que ir para a gaveta, mas percebendo o potencial imagético das histórias, Rubens decidiu adaptar as histórias do HQ para cinema. E em parceria com Rogério Schiavinatto, que conheceu durante as filmagens do curta “A Chácara Maldita”, deram inicio ao processo de produção em novembro de 2008.

“Tatúrula, Sinfonia do Medo” se tornou então um projeto composto de sete contos macabros com temas tabus atuais e violentos, no qual “A História de Lia” é a primeira história do projeto produzida. Ancorada no tripé drogas, sexo e loucura, o curta-metragem retrata de forma onírica a realidade nua e crua estampada nos noticiários da TV.

Sinopse: Lia é uma adolescente que vive num lar doentio e violento. Para fugir das freqüentes tensões do dia a dia, ela se envolve com um grupo de jovens marginais e acaba por se entregar às drogas. Mas a tragédia se desencadeia quando ela é possuída por sua amiga invisível.

“A História de Lia” vai além do lugar comum dos filmes de horror por uma característica muito interessante: o filme tem uma beleza visual impressionante, a fotografia aliada perfeitamente a direção de arte cria planos e enquadramentos de qualidade estética fabulosa, a luz, a cor, a textura, as linhas, os contrastes dão um clima onírico que é absolutamente hipnótico, ouso comparar sua beleza pictórica a Jean-Baptiste Chardin, pintor barroco de Natureza-Morta, injustamente considerado um gênero menor na pintura (assim como é o horror no cinema), Chardin tem um quadro chamado “A Arraia”, que é uma obra extremamente impactante, impressionando todos na época, inclusive Denis Diderot, importante filósofo e também considerado o maior crítico de arte de sua época. Mas, qual a semelhança das duas obras? É a beleza a partir do horror, do repugnante, pois mesmo retratando algo tão repulsivo, o quadro tem uma relação entre composição, textura e cor pontual, que cria um fascínio ao expectador, e o filme de Rubens faz o mesmo.

A locação do casarão abandonado é de uma beleza plástica instigante, já nos primeiros planos do filme, em contra-plongè (câmera enquadrando de baixo para cima), a câmera demonstra a imponência deste casarão decadente, de textura áspera e assustadora, a câmera faz um travelling adentrando nesta casa, a porta é gigante (graças a lente grande angular muito bem utilizada), porta que é um grande signo visual, é a entrada, o começo, a passagem, a ligação de um lugar comum para um novo mundo, e que mundo é este em que seremos transportados, cuja  porta é de um imponente casarão abandonado, decadente, sujo, áspero e sombrio? Não precisa de prólogo, narração, legenda, explicação de nada, a introdução explica tudo, só com imagem. Cinema puro!

A montagem é o outro grande destaque do curta, de forma não linear, que lembra muito David Lynch em sua obra prima “Cidade dos Sonhos”, o curta alterna flashbacks, presente, delírios e realidade. Nos contrapontos tempo-espaço vemos a inocência de uma criança, justaposta ao clímax de uma “bad trip”, o sensual e o grotesco,  o bom e mau, o irreal e o real, o passado confuso, um futuro impreciso, sem explicação aparente, apenas planos sobre planos, signos sobre signos, sensação sobre sensação, tudo orquestrado pela montagem, o que nos faz entender o que Eisenstein (grande cineasta russo e teórico da montagem cinematográfica) queria nos dizer quando escreveu que a montagem no Cinema tem ser um soco no estômago, não tem que ter “historinha” tem que ter imagem somada a outra imagem gerando um novo sentido, e esse sentido tem que ser o soco no estômago, um “Cinema Punho”, e o filme de Rubens parece nos dar socos incessantes, inserindo-nos diretamente no surto psicótico da personagem Lia.

“A História de Lia” consegue também algo muito difícil, principalmente no cinema fantástico: a verossimilhança. O espectador nessa enxurrada de imagens sobrepostas consegue entrar na história, nos delírios, na angústia, no horror, sem “sair” do filme, ficamos todos absortos, “acreditamos” nas imagens, tudo é verossímil, seja pelo argumento amparado em teorias reais da psicanálise, seja pela grande interpretação da atriz Karina Bez Bati, seja pela extrema qualidade de efeitos visuais do curta. Sua verossimilhança não depende de uma dramaturgia romanceada, típica do cinema convencional, seu cinema depende apenas das imagens que ele cria, citando outro Russo, “A História de Lia” nos remete ao manifesto de Dziga Vertov, que dizia que o cinema deve expulsar os intrusos, principalmente o teatro, e deixar o cinema na sua forma mais pura: a imagem, aquela que só uma câmera pode captar. Rubens consegue também essa proeza, a do “Cinema Puro”, seu curta não tem nem diálogos, só imagens!

“História de Lia” é sem dúvida um filme excepcional, elogiado e reconhecido pelo mestre José Mojica Marins, e não o bastante, o curta ganhou o prêmio de melhor direção no 5° Cinefantasy 2010 e estará representando o Brasil em alguns países da Europa como Portugal, Itália e também na Finlândia, entre outros. Daqui para frente, o resto é história.

André Okuma

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